O ESTILO

O ESTILO DA ESCOLA

Qual é o estilo de Kung Fu da escola? Esta pergunta é recorrente, tanto nos novos atletas que entram para o Clube, nos que vêm apenas experimentar, como até em pessoas supostamente conhecedoras das artes marciais chinesas.

Algumas escolas têm a preocupação de identificar à cabeça o estilo de Kung Fu que praticam; outras utilizam uma designação genérica (por exemplo Shaolin) porque muitas vezes não têm uma identificação clara, sendo o conteúdo daquilo que ensinam um mero aglomerado de formas de WuShu moderno (ver Conceitos), sem uma referenciação clara à linha tradicional ou, se existe, esta não poderia, em última análise, suportar uma filiação dessas escolas.

Outras escolas ainda pormenorizam exaustivamente a sua linhagem, desde o fundador do estilo, passando pelos nomes mais famosos, até ao responsável actual, numa ânsia de legitimarem o seu produto comercial. Há que dizer que, se fosse feita uma análise rigorosa à história de algumas daquelas linhagens, provavelmente pensariam duas vezes antes de se reclamarem da mesma.

Por outro lado, a percepção do que é um estilo de artes marciais chinesas só pertence a quem tem conhecimentos mais profundos da teoria e do desenvolvimento destas artes, e não são válidas ideias genéricas adquiridas por ouvir falar ou por ler na internet. A mero título de exemplo, dizer que o Jeet Kune Do desenvolvido pelo falecido Bruce Lee constitui um “estilo” é um perfeito disparate: o Jeet Kune Do é apenas um método de combate e não preenche a noção de estilo. O Clube Hong Long, no âmbito do seu ensino teórico, proporciona um Seminário dedicado ao estudo do desenvolvimento dos estilos de Kung Fu onde são aprofundados os requisitos para que se possa falar de um estilo.

Mas voltando à questão central, afinal qual é o estilo ensinado na nossa escola? Para resposta a esta questão, há que ter algumas noções, ainda que sumárias, de como se desenvolveram as artes marciais após a destruição do Templo de Shaolin do sul (1736? 1768?). Este facto marca a disseminação das artes marciais, primeiro no sul da China e depois para todo o território da China, em consequência dos conhecimentos e técnicas transmitidos pelos discípulos que conseguiram escapar à destruição do Templo.

A segunda noção a ter em conta é que o ensino de Shaolin do sul era um ensino integrado, ou seja, um ensino sistematizado num tronco comum – O Punho dos Cinco Animais. O desenvolvimento posterior era, para cada aluno, individualizado tendo em conta as características próprias de cada um, e ensinado também individualmente. Nos primeiros anos, todo o treino destinava-se a fornecer as bases comuns, assentes na biomecânica natural do corpo humano, e na preparação física e psíquica dos discípulos. O Punho dos Cinco Animais de Shaolin constituía assim o principal corpo de técnicas transmitidas naqueles anos.

A terceira noção a ter em conta é que os estilos de Kung Fu desenvolvidos em Shaolin constituíam uma especialização, ao contrário dos estilos que se foram formando posteriormente aos actos de destruição dos Templos da seita Shaolin, ou mesmo dos estilos que se formaram fora das ordens monásticas. A grande diferença é que, dentro do ensino tradicional de Shaolin, os estilos aí desenvolvidos assentavam (directa ou indirectamente) no Punho dos Cinco Animais, ao passo que os estilos posteriores e os estilos exteriores a Shaolin não continham esta base ou, quando muito, usavam-na simplificadamente e condensada num TaoLu único. Ainda que alguns estilos (por exemplo, alguns ramos do Hung Gar / Hong Chuan) tenham preservado os TaoLu separados, este foram simplificados e passaram a ter um papel secundário.

Há já aqui um critério que permite distinguir entre estilos de Kung Fu com verdadeira origem em Shaolin e estilos apenas com raiz em Shaolin ou mesmo sem qualquer relação com esta seita. Para já não falar daqueles estilos que passaram a existir após a revolução cultural chinesa do Séc. XX …

Os estilos e técnicas transmitiram-se posteriormente tendo em conta as adaptações impostas pelas circunstâncias, nomeadamente aquelas que foram determinadas pela necessidade de preparar combatentes para integrarem as fileiras de resistência ao regime dos imperadores Qing / Ching (1644 – 1910/11). Estas adaptações esqueceram muitas vezes a longa preparação filosófica e temas como a saúde.

Todavia, desta transmissão de conhecimentos a partir do Templo Shaolin, fez ainda por outra via: a deslocação para outros locais monásticos, onde alguns dos monges se refugiaram e deram continuidade ao ensino. Destes, destacamos os Templos de Ha Say Fu e de Hoy Tong. Nestes locais de culto, a salvaguarda do ensino de Shaolin foi possível e mantida a tradição, no que diz respeito à pureza das técnicas originais.

Por razões de sobrevivência, nomeadamente porque o ensino nesses locais teve de ser mantido secreto a fim de evitar a perseguição do poder político, a divulgação dos estilos era feita de mestre para discípulo, mas sem que tenha havido grandes grupos de praticantes nem intuitos comerciais na sua transmissão. Por isso foram sendo menos conhecidos.

É nessa linha de transmissão que o Mestre Yum Chung Lei (Yin Chang Li) recebe o sistema do monge Shi San Tsan e veio a confiá-lo apenas a alguns discípulos. È desse ensino que o Clube beneficia. Portanto, mantendo-se o mais próximo possível da tradição, o estilo da escola é o Punho dos Cinco Animais de Shaolin.

Quem completar o estudo deste estilo poderá aprender o estilo do mestre. Mas isso é outra conversa.