
|
 |
Tradução
Damo: Conspiração da Ignorância
Muitos artistas marciais terão ouvido a história de Bodhidharma ou Damo. Na história, este monge indiano chegou à China, fazendo eventualmente à sua maneira o templo de Shaolin do Monte Songshan. Lá verificou que a condição física dos monges era pobre e por isso eram incapazes de se sentarem em meditação prolongado. Inicialmente ficou tão desgostoso que se retirou para uma caverna, onde ficou sentado em meditação durante nove anos. Então um monge chamado Hui Ke cortou o seu próprio braço para mostrar que tinha apreendido os ensinamentos mais profundos de Damo. Este concordou então ensinar os clássicos “Lavagem das Medulas” e “Mudança dos Músculos/Tendões”, tal como os “18 Movimentos do Lohan”, uma série dos exercícios que visam melhorar a habilidade dos monges para meditar. Muitos contadores da história adicionam que estes exercícios derivaram das rotinas marciais familiares a Damo da sua juventude, numa família de casta guerreira. Em todo o caso, a história conclui que estes exercícios fizeram florescer o Kung Fu de Shaolin e são consequentemente a raiz do Kung Fu. É uma boa história. É pena ser uma falsificação.
Esta história esteve sob o escrutino na China por um tempo muito longo, mas ficou inquestionada pela maior parte do Ocidente. Por exemplo, o livro de Tang Fan Sheng “Uma referência em Shaolin e Wudang”, escrito em 1930, relata que esta fábula pode ser encontrada anteriormente numa única fonte: o prefácio por Li Jing do “Clássico da Lavagem das Medulas”. Li Jing declara neste prefácio que o escreveu no decurso da dinastia Tang. O Sr. Tang nota que o Templo de Shaolin de facto exerceu uma grande atraccão para os literados, os quais escreveram muitos poemas e ensaios, que caracterizam o Templo durante esta época. Shaolin gozou de tal fama não somente porque conquistou o favor real, mas também porque era o manancial do Budismo Chan (Zen). Entretanto, a pesquisa do Sr. Tang encontrou muitas contradições e anacronismos.
Talvez a mais berrante contradição que o Sr. Tang aponta é a diferença entre os ensinamentos de Damo e aqueles que foram gravados nos clássicos. Enquanto Damo pregou e praticou um método da transmissão directa da iluminação, do coração e da alma no ensino do Chan, os clássicos estão cheios de cânticos e “contorções”. Consequentemente, de acordo com o Sr. Tang, o teor é um anátema na alma de Damo e é difícil acreditar que qualquer um que vivesse na época de Damo ousaria passar por um disparate tão óbvio. Há exemplos ainda mais concretos que apontam directamente para a fraude da peça. Entre estes erros óbvios está o relato de Li Jing, de que Damo chegou ao reino de Wei durante o ano “Tai He” de Xiao Ming. De qualquer maneira, isto colocaria a chegada de Damo mais de 30 anos antes da fundação de Shaolin. Quem escreveu isto naquele tempo provavelmente não faria tal erro. Em segundo lugar, muito do texto parece ser copiado directamente do livro “Transmissão da Luz”, um livro largamente alegórico, que descreve a iluminação do Chan, e que não foi escrito antes da dinastia Ming.
O Sr. Tang afirma que, contendo o prefácio referências a um muito real Hui Ke e a escrituras Budistas indianas, os leitores aceitaram Li Jing como tendo vivido durante a dinastia Tang. Mas mais, explica que muitas das histórias correntemente aceites sobre Damo e o estabelecimento do Kung Fu de Shaolin, não se encontram em fontes anteriores à dinastia Ming. Por exemplo, sublinha que não há nenhuma história de Damo olhando fixamente para uma parede e deixando a sua sombra nela, nos registos contemporâneos da dinastia Tang. Em consequência desta discrepância, o Sr. Tang sugere que a fábula foi criada no final da dinastia Ming ou talvez no início da dinastia Qing. O livro do Sr. Tang é interessante de ler como uma peça que reflecte sua própria época republicana. Ele não se limita a pesquisar na história, mas critica muitos livros e outro material publicados no seu tempo, que veiculam não somente os erros, mas compõe-nos também. Por exemplo, uma história de artes marciais, que se refere à narrativa de Damo, relata que o reino de Wei estava de algum modo na China do Sul, quando Liang estava a Norte … o oposto completo da realidade! O Sr. Tang denuncia os seus “contemporâneos modernos que vivem nesta idade científica” por não fazerem mais pesquisa antes de transmitir fabricações.
Estas conclusões de Tang são suportados ainda pelo trabalho de Matsuda Takatomo em seu livro “Uma História Ilustrada de Artes Marciais Chinesas,” publicado em 1979. Matsuda revisita fontes originais, tal como o trabalho feito por Tang Hao e por Xu Ze Dong. Relata que os clássicos foram supostamente publicados em 628 e no entanto, de acordo com todas as pesquisas, a mais velha cópia disponível foi publicado apenas em 1827, deixando um lapso de aproximadamente 1200 anos. Durante este milénio ou mais, muitos livros sobra as artes marciais de Shaolin foram publicados. Por exemplo, "An Overview of Shaolin Pole Techniques" (Visão Geral das Técnicas de Vara de Shaolin), o "Fist Classic" (O Clássico do Punho) e "Collections of the Spirit Hall” (Colecções do Espírito do Salão). Estranhamente, nenhum destes trabalhos menciona Damo e mais estranho ainda, Matsuda relata que as palavras como “medulas”, “lavagem” ou “clássico” não se encontram em nenhuma das páginas dessas obras. Mesmo livros que cobrem a história Budista e sua linhagem, relatam somente que “Damo viveu em Shaolin sentado em meditação Chan todo o dia e toda a noite,” sem qualquer menção a um “Clássico de Lavagem das Medulas”. O Sr. Matsuda anota que durante as dinastias Ming e Qing, era muito comum os escritores atribuírem os seus trabalhos a autores há muito desaparecidos e muito respeitados, de modo a que esses trabalhos ganhassem autenticidade. Sustenta consequentemente que artistas marciais do final da dinastia Ming ou do início da dinastia Qing usaram o nome de Damo a fim de aumentarem a sua popularidade e poder.
Finalmente, "A Practical Guide to Chinese Martial Arts" (Guia Prático das Artes Marciais Chinesas), escrito por Kang He Wu em 1991, revê a história da descoberta, incluindo o trabalho de Tang Hao. Acrescenta, citando monges entrevistados em 1927 que relatam uma tradição oral, que as técnicas do punho, as quais compreendem agora o Kung Fu de Shaolin, foram trazidas para o Templo durante as dinastias Song e Yuan. Antes disso, as técnicas de Shaolin estariam limitadas à luta de vara. Em todo o caso, o Sr. Kang conclui também que Damo não é o fundador das artes marciais de Shaolin.
Para mim, pergunto-me porque estão tantos assim dispostos acreditar profundamente neste história. Talvez a opinião venha da fé nos nossos professores? Talvez haja necessidade de um ponto único, de um originário simples? Ou talvez a necessidade ser tão digno como Hui Ke nos dirige. Qualquer que seja a razão, talvez devêssemos parar um momento para reflectir e questionar se a história de Damo não será senão uma alegoria.
Texto de
Chris Toepker
Original em http://www.hungkuen.net/article-damo.htm
| 
|
|